dossier wilson bueno

Wilson Bueno nos habrá legado no pocos textos marcantes, innecesario aquí subrayarlos. ¿A quiénes, nos/as? Cuestión abierta. Por de pronto, para algunos/as, que, en la experiencia de la amistad –no exenta, a ratos, de filosas discordancias–, habremos vislumbrado la móvil radicalidad de su escritura. Textos marcantes no sólo o no tanto en contexto curitibano o brasilero o aun latino- y/o ladinoamericano. Textos marcantes abiertos al descontexto o al contexto por venir en cada textura en que sus marcas marafas se entrelacen, confluyan y vuelvan inéditamente a desarmar todo contexto predeterminado. Otra vez: Wilson Bueno nos habrá legado no pocos textos marcantes, innecesario aquí subrayarlos. Allende la necesidad y la innecesidad del caso, con todo (y nada), cómo no hoy subrayarlos, económica y/o dispendiosamente, cómo no saludarlos.

reynaldo jiménez / andrés ajens junio 2010

miércoles, 11 de agosto de 2010

Elegia para Wilson Bueno

Assim se mata um homem:
com uma facada no pescoço
Assim se mata um homem:
com uma facada bem no pescoço
exemplarmente, estrategicamente,
Assim se mata um homem:
à traição, por trás, bem de perto,
de um modo certeiro, de uma vez,
Assim se mata um homem:
na sua própria casa, na sua
sala, no seu mundo particular,
lá!, onde era, podia ser, todo,
Assim se mata um homem:
para que todos saibam depois,
muito tempo depois, para que um
irmão o encontre, para que ninguém
possa salvá-lo, para que um irmão
possa se encontrar com o terror
e se despedaçar, para que todos
saibam que ninguém está seguro
neste mundo, para que todos
saibam que a casa é parte do
mundo, mas enfim, enfim, para
que todos, ingênuos, cínicos,
trouxas, saibam, no seio da
classe média brasileira, que país
é este, mata-se um homem como
se mata um bicho, de um modo
selvagem, mata-se não mais um
homem, mas um homem outro, não
um homem outro a mais, mas um
dos últimos homens outros num tempo
de desumanizações, como prova da
desumanização cotidiana, por
isso mesmo mata-se um homem
como se mata um porco, mata-se
um homem assim, com uma
facada na garganta, para que
o jorro de sangue corra pela face
e se confunda com as lágrimas,
para que, como água de represa agora
aberta, desrepresada, agora em
fúria escorra e inunde, porra!,
a terra toda de realidade, da
realidade dos realistas, da estúpida
realidade dos realistas capitalistas
racistas machistas, para o triunfo
dessa insuportável realidade, mata-se
um homem que resistia à realidade,
que desobedecia a realidade, que
desrealizava a realidade, mata-se
um homem com o rigor brutal da
realidade, com uma facada no
pescoço, para deixar bem claro,
uma vez mais, como a realidade é,
como a realidade age, o que é a
realidade, a barbárie, o sangue,
o crime, o sofrimento, a dor, a dor,
Assim, para que não fique nenhuma
dúvida sobre o poder destruidor
da realidade, assim, sangrando,
mata-se um homem, fazendo-o
urrar como um boi no matadouro,
castigando-o impiedosamente até
cair como um pedaço nojento de
carne e osso, como um castigo por
ter ousado sonhar, por ter sido um
sonho andante, como um castigo
por ter ousado sentir, por ter
sido um sentimento ao vivo,
enfim, como um castigo por
ter sido apenas e apenas ter
estado para ser, condena-se
e mata-se na surdina, na própria
casa, covardemente, de um
modo vil, condena-se e mata-se,
com uma facada bem no pescoço,
com uma perversidade que só
o mais animal dos animais, só,
ninguém mais, o bosta absoluto,
o racional, o civilizado, o crente,
o fiho de Deus, o que crucificou,
por amor a Deus, o próprio filho
de Deus, uma perversidade que ele,
o mesmo homem, o homem ele mesmo,
só ele consegue ter, com essa perversidade,
mata-se um homem outro, não um
outro homem apenas, não mais um
homem outro a mais, um artista,
Assim, com uma facada fatal bem
no pescoço, rasgando a voz,
decapitando grotescamente a fonte
de humanidade, mata-se um homem
outro para deixar bem claro, mais
uma vez na história, que os homens
outros (Cristo, Trotski, Lorca, Che,
Malcom) não têm lugar neste mundo


anelito de oliveira / montes claros

martes, 3 de agosto de 2010

CINCO JUGUETES DE WILSON BUENO



cálculo


qué amor más oscuro

lloran árboles de noche

ramas contra muros


la nostalgia trama triste

tres mil años un segundo





presente antiguo


arreglo floral

pétalo a pétalo azul

celofán en velo


suelto del hilo de seda

el colibrí hace el cielo





mudanza


mi madre a las espaldas

atravesamos aldeas

más de cien kilómetros


tanto la llevamos en brazos

que ahora somos aéreos





reflejo


¿de qué mirar la faz

espejo mío, espejo mío

tu inmóvil fiesta?


fijo reflejo de nada

en ti en tanto el color de la tarde





jardines


en un vaso de flor

planto futuras begonias

y un cactus cantor


florecen róseas falenas

y una flor, dicen, de menos



traducciones reynaldo jiménez / buenos aires

lunes, 26 de julio de 2010

Los tesoros de la bisabuela
para Wilson Bueno

Hay un poema de ella para el niño,
sombrío, sí, para su corta edad,
pero que hacia el futuro, con cariño,
ayer le dedicó, con su verdad.

Eso que le escribió, quizá en tercetos,
- con una pluma embebida en tinta china
y a la luz de un trémulo candil -
tal vez sea el mayor de sus secretos
(como un tesoro sin mapa de la mina).

Sólo que nadie sabe en qué valija
la bisabuela encerró ese mensaje:
si duerme junto a sus guantes de encaje,
si se enredó en las sedas y bordados
del mantón de Manila o del traje
que usó, en otro siglo, en sus bodas.

El que tenga la llave que se presente,
el que tenga la llave que se presente,
o que se calle, o que se halle, o que se calle
para siempre.


josely vianna baptista / florianópolis

martes, 29 de junio de 2010

Fragmentos de Mar Paraguayo por Wilson Bueno (audio)

Wilson Bueno salió pocas veces de Brasil. En octubre de 2005 fue invitado a Buenos Aires por la revista Grumo a un evento de presentación en el museo MALBA. También fue la oportunidad en que se presentó la edición argentina de Mar Paraguayo (la misma noche se presentó Centralasia de Roberto Echavarren; ambos títulos por ed. tsé-tsé) en Estación Alógena. Esta grabación es el registro hasta ahora inédito de una performance inolvidable y nos llega por gentileza de NakAbra.

Para escuchar, haga click en este link:

http://www.intemperie.cl/dossier/temas_dossier/jun2010/doc/WilsonBuenoAlogena01.mp3

lunes, 28 de junio de 2010




A tragica morte de Wilson Bueno nos choca a todos, mas a mim não surprehende, num paiz ainda marcado pelo preconceito, pela violencia e pela insegurança. Mas prefiro, aqui, rememorar felizes momentos do meu longo convivio com o ja consagrado escriptor que se notabilizou nas fronteiras litterogeographicas do portunhol. Conheço-o desde o inicio dos annos 1980, quando elle, pioneiramente, editou a secção litteraria das primeiras revistas gays brasileiras, as paranaenses PETECA e ROSE, numa das quaes publiquei um conto erotico. Ainda naquella decada, na cadeira de editor do vanguardista supplemento NICOLAU, tambem de Curityba, Wilson me accolheu por diversas vezes, como articulista e poeta. Na mesma epocha, entrevistou-me para a TV local, quando la estive, lançando um album de quadrinhos na gibitheca da cidade. Mantivemos constante intercambio postal, e eu sempre o felicitava pela coragem com que abordava themas polemicos, não apenas tabus sexuaes, mas os proprios parametros que teem engessado os generos litterarios, inclusive no terreno linguistico. Mais recentemente, elle foi o primeiro a resenhar meu livro de estréa como sonetista na phase da cegueira, num generoso texto para o jornal paulistano O ESTADO DE S. PAULO. Na ultima vez em que o reencontrei pessoalmente, participavamos dum congresso de escriptores de falla hispanolusitana, aqui em São Paulo, quando elle foi muito applaudido ao ler com grande dramaticidade um trecho de recente romance. Tinha, de facto, impressionante presença, pessoal e textual. E não tinha collegas que lhe disputassem o singular posto de desbravador interdialectal, com a possivel excepção, em poesia, de Douglas Diegues. Deixará immensa lacuna, que acho difficil de preencher. Mas a maior lacuna é a da amizade e do companheirismo, que jamais tem substituto.

junho/2010

glauco mattoso / são paulo




[Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.]

viernes, 25 de junio de 2010

bueno bueno malo
malo malo bueno
non kostumo falar maluko
menos ainda dos falessidos krepados assessinados
komo wilson
-aichinjàranga-
finales dos anos oitentas
foi kom.bidado pela universitê kurichiwana
wilson era jefe de la gavilla pandilla patota
juvenil poiêtika brasilienxis
dirigía nicolau
pidiô pra mim entrebista com livio abramo
depoîz elle fiz mar paraguaio
1986 1987 leminski bebado vivía aún
a travez de eli koñezî muita gente
entre ellos josely
más tarde jussara
y ainda máis tarde duglas dieguez
gran animador kultural (wb ê tan-veim didí)
akî tenho o manual de zoofilia
& bolero's bar
cuya dedicatoria em letra manuscrita perfecta diz
Para
Jorge Canese
,
estes textos que propositadamente fogem
à prisão dos gèneros e que se constituem
em síntese de vinte anos de colaborações
na imprensa brasileira.
O abraço e a admiração
do
Wilson Bueno
29/09/87



jorge canese / asunción

domingo, 20 de junio de 2010

No xardín de palabras e fermosura: pensando en Wilson Bueno dende Montreal



Sewatahon'satat. Como pode ser, que xa non estás no teu lugar, Wilson! Que só existes agora no teu Mar, no teu Jardín. Na miña mente e nas lembranzas de moit@s. And in your texts, in the borders of languages, in the difficult and joyful foment of languages that is Brazil and you, and that connects you to my place, Montréal, also a foment of languages.

I encountered Wilson Bueno pola primeira vez in a text from his Jardín Zoolóxico, “O Agôalumen,” in a French translation sent to me by Andrés Ajens not from Brazil but from Chile. It was only ten years ago, a bit less than 10 years, and Andrés’ email of September 21, 2000 is still in my computer, with the bizarre accents of software that in those days only spoke English letters, or got confused.


Olinda, quinta feira

Hola Erin,

je te fait parvenir en attach. un monstre sympa (un monstruo bueno) qui m¥est envoyÈ Wilson, un autre Wilson, non pas Carl, mais Bueno, mon avis un des meilleurs Ècrivain brÈsiliens de hoje (superbe, son livre: Mar paraguayo). Bueno, el francÈs... un peu castellanisÈ, bien entendu. VocÍ va gostar...

AndrEu


Si, gústoume moito a peza de Wilson! I then read Wilson’s Mar Paraguayo in Montreal, sent to me by Andrés in a copy signed by Wilson, as the year changed from 2000 to 2001, and I was amazed and captivated. O portunhol foi unha descoberta para min, un idioma mixto nunha época onde aínda estaba escribindo O Cidadán, un poemario en inglés con frasas e palabras en francés, castelán, galego, – idiomas que afectaron e que afectan o meu inglés. I could never live in just one language.

E quería intentar de verter anacos do seu texto en “inglés,” ou non en inglés, nun equivalente invertido do noso franglais local (que emprega palabras inglesas con estructuras franceses), complicado yes yes por palabras de mohawk, de la langue kanienkeha, parlée par un groupe important d’autochtones en Québec, para traducir o guaraní… mesmo se en realidade, en Quebec, non hai interlingua que contén o kanienkeha, un idioma que nunca penetrou o inglés salvo en nomes de lugar). It was an enormous challenge to translate Wilson, un reto enorme, enorme, porque non coñezo o mohawk e só podía ter aceso a través uns dicionarios moi limitados no Internet (non recibín nin unha resposta ás miñas tentativas de atopar axuda da comunidade mohawk)…

I should write in English, for my grief is in English. An English that is not my language, that was never my language, but that is, it is the one that was taught to me, in which I was taught.

I should stop thinking in three languages at once, my three languages, porous in me.

The fact that in losing Wilson Bueno, Brazilian letters have lost a singular and critically significant voice, is beyond question. But English also loses, and my literature to the north, Canadian literature, loses when someone like Wilson Bueno is no more. His writing gave me courage, it was and is a companion writing. And I’ll miss the companionship of Wilson’s emails, his insistence that I translate, one day, more of Mar Paraguayo, his gentleness and generosity in exchanging books and words across all that divides north and south. Wilson, aínda existes! You still exist because you have to, Wilson. You still exist because you are too stubborn to go away and leave us. And yet you are gone, Wilson!!!, gone when you shouldn’t have had to go.

I’ll end with a small excerpt from Mar Paraguayo, “Aquiduana afternoon” from the Oxford Book of Latin American Poetry, where I finally was able to translate a few pages of Wilson Bueno successfully and bring them to a world that reads in English. It is his voice that surges up, southern, from beneath my northern voice, contaminating English in such a beautiful and urgent Wilsonian way. Addressing us with the fatigue of metals, the hour of disgraces, the lamp, the blood pressure, and the need to sing a new zany song, even if we never feel complete….


La fatigue des métals, l’oeuf de l’oegg du scorpion, the vigil, the tacit meat made a yoke, inheritance d’adulthood, what’s spent, les years, moitié ville, moitié vie, the scorched alley, rivière ébulliante de cinquante winteres, the dark face of exhausted blood, kidneys already failing, la pression artérial, nettle and paprika, the point, the sea, le cap, la mer, the facte and the cape of good hope, those lost in the brambles, the fact, the arc du sinistre, les pallid ones, dusk, our chambre, notre maison, all khe'kenhren'stha', the humblest lamp, our bed, the amputated sexe that still itches. And I choke it, the flaccid, le flou, the hollow of the hollowe of the middle, it’s all in half-light. And there’s worse: demain il faut que je me chante a new zany chanson, and maybe I will feel complete as are toutes the stations of the Hour of Disgraces.


20 June 2010

erín moure / montréal